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moacircaetano


Desconforto


Acordou de manhã
e calçou seu destino.
Achou-o um pouco apertado,
mas ainda assim
seguiu seu caminho.

Durante o dia, a dor aumentou.
Doía no carro, dóia na rua, doía no elevador.
Parou na calçada e chorou.

Não sabia o que fazer.
Não sabia como se salvaria dessa teia.
Só não pensou no mais simples:
tirar os sapatos
e andar com os pés na areia.




 Escrito por moacircaetano às 16h27
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Vagabunda


Ruídos na porta.
Som de chave na fechadura.
Girando.
Amplificando
minha noite de insônia e tortura.

Os fios da meia-calça roçando o tapete,
tão desgastado,
no piso da sala.
Passo a passo.
Vagarosamente.
Vontade de matá-la.

Posso até ouvir sua respiração.
Entrecortada.
Não sei se medo, excitação
ou embriaguez.
Provavelmente a emoção
por ter feito tudo,
tudo outra vez.

Agora já chegou ao quarto.
Não é só a audição que me auxilia.
Posso sentir, mesmo de longe,
o cheiro de vinho barato
aquecendo a noite fria.

De nada me adiantam agora
todas as leituras de outrora.
De nada me adiantam Baudelaire,
Sheakespeare e Gonçalves Dias.
De nada me adiantam Neruda, Machado,
ou Dostoyevsky e suas alegorias.
De nada, nada me adiantam
Freud, Jung, Nietzche
e suas teorias tantas.
De nada me adiantam centenas de livro na estante.
Me apaixonei por uma vagabunda
sem vergonha, bêbada e inconstante.

O som delicioso de sua roupa tocando o chão.
O som de sua calcinha molhada caindo sobre a roupa.
O som de seu corpo nu singrando o ar
e se aproximando da minha boca.

Ela se deita ao meu lado.
Roça seu sexo em minhas pernas.
Arromba todas as portas.
Adentra todas as cavernas.

Beija minha boca com seus lábios.
Cheiro de outro homem.
Gosto de outro homem.
A raiva me impele.
O ciúme me consome.

...

Estou dentro dela.
Estou no paraíso.
Nas minhas mãos, a força do ódio.
Na minha cara, um enorme sorriso.

E enquanto pressiono contra meu corpo a sua bunda,
agradeço a Deus por minha doce vagabunda!




 Escrito por moacircaetano às 08h07
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Eixo


Sou pêndulo.
Oscilo.
Excêntrico.
Esquivo.

Sou pêndulo.
Desculpe-me não haver lhe contado.
Pensei estar implícito
em meu histórico, em meus atos,
em minha poesia
(Que, afinal, é quem cria
esse ser exótico, errático).

Sou pêndulo.
E no fim sempre retorno
à posição original,
não se esqueça.
Meu movimento oscilatório,
afinal,
guarda em si uma certeza.

Sou pêndulo.
Portanto inconstante.
Mas pense só por um instante:
se me movo
pra lá e pra cá...
pra lá e pra cá...
pra lá e pra cá...
no mesmo vai-vém irritante,
é também verdade
que estou sempre preso
à mesma mesma estante.




 Escrito por moacircaetano às 21h08
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For ever



Com essa aliança
se inicia
um novo passo da nossa dança
Uma dança feita de novas memórias
de antigas histórias
com cheiro de velha conhecida
e cor de esperança

Com essa aliança
recomeça
a nossa brincadeira de criança
e a gente roda, brinca e dança
e corre, depois descansa
e sabe que toda ciranda de roda
nunca termina, pois é signo de eterna mudança

Com essa aliança
nos recriamos
à nossa imagem e semelhança
e não há pecado original
que nos livre do mal
de estarmos sempre nessa festança

Vem, me dá a mão, vamos viver
o que o vento, a vida nos prometer...



 Escrito por moacircaetano às 11h15
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A Calma


Um dia fui criança...
eu me lembro!
E tudo era dança
e desprendimento.
E tudo era ser feliz
ao sabor de cada momento.
E tudo era bolacha, e café com leite,
e desenho animado,
e meu avô do meu lado.
Mas meus ossos, minhas células,
minhas glândulas e artérias,
meu corpo todo, traidor,
cresceu.
E com ele a dor.

Um dia fui adolescente,
me lembro muito bem.
E sabia tudo sobre tudo,
sabia sem perguntar a ninguém.
E todo o mundo era minha estrada.
A vida, uma motocicleta envenenada.
E no entanto,
colidi com meu próprio espanto.
E esqueci-me de cintos de segurança.
E matei minha esperança.

Um dia envelheci, eu me lembro.
Há algum tempo atrás.
E a poesia
chegou um pouco tarde demais,
quando já era gelo dentro de mim...
quando já não havia montanhas-russas
ou viagens à lua.
Quando cheguei enfim
ao outro lado da rua
sem ninguém pra segurar minha mão...
e o que era independência
se tornou em somente solidão.

E há o hoje.
Eu me lembro.
E esse movimento...
um rio me correndo por dentro...


 



 Escrito por moacircaetano às 00h32
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Garoa


Ei, eu já te disse isso...
é que chove dentro de mim...
chove dentro de mim!

Chove assim, essa chuva fininha,
chuva de molhar bobo.
Chove e não para nunca,
chuva que desce o morro
inundando as plantações de dentro de mim.
Chuva que insiste, insiste,
chuva que não tem fim.

Mas enfim,
não pense que eu sou triste.
Meu céu é azul, aberto
e o sol
está quase sempre por perto.
E a noite
é quase sempre pequena
(pois a minha alma não).
E é sempre esse mesmo dilema
entre a luz e a solidão.

Fico com os dois.
É meu feijão com arroz.
E sigo, completamente molhado
pelos carros que passam ao lado.

É, vai ser sempre assim.
Pois chove dentro de mim.






 Escrito por moacircaetano às 01h46
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Estatuto


Há que brotar substância e sentido do que digo.
Há que surgir entendimento
no momento
em que meus signos se lançam ao vento.
Há que se haver compreensão.

Há que pulsar um certo ritmo.
Comedido ou galopante,
histérico ou hesitante,
ao sabor da hora.
Da aurora
há que nascer algum verão.

Há que ser assim a minha poesia.
Sem hermetismos acrobáticos.
Sem onirismos estrambóticos.
Sem onirismos quase fantásticos.
Simples.
Como um pedaço de pão, uma fatia.

Pra que o leitor ainda adormecido
possa recheá-lo como quiser.
Manteiga, mel, margarina.
Faca, garfo e colher.
Pra que não seja necessária
demasiada atenção.
Pra que seja leve como uma canção
(dessas que um estudioso adoraria,
mas também o atendente da padaria).

Pra que o leitor distraído
possa tocar de ouvido
e tamborilar os dedos
enquanto enfio-lhe em cada entranha
cada um dos meus segredos.

Pra que eu seja pop,
e assim, disfarçado de leve,
imprima meu toque
em cada floco de neve.
http://oamoreoutrospequenossentimentos.blogspot.com


 Escrito por moacircaetano às 20h16
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Passeio


Na prateleira de baixo da estante
repousa o poeta.
Entre a poeira do chão
e os livros de dieta.
Aos pés da literatura modernosa
e dos milhões de livros de prosa.

É até confortável ali.
Ninguém o enxerga dessa vez.
(O que é saudável à sua timidez).

Além do mais,
pode olhar abaixo dos vestidinhos
das madames em busca de romance
e das Meninas-Revista-Carinho.

De vez em quando alguém se recorda.
Mas ele se esconde
atrás de um livro do James Bond.

Um dia ainda vai sair pra passear.
Vai pra prateleira do meio.
Deixa só acabar o estoque de Paulo Coelho!

http://oamoreoutrospequenossentimentos.blogspot.com

 Escrito por moacircaetano às 19h40
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Súplica, quase uma prece.


Mas enfim
cadê Ele?
Cadê Ele
que não aparece?
Que não responde a nenhuma prece?

Porque não dá as caras?
Porque não entra pra um café?
Porque não me dá um abraço
e renova minha fé?

Porque não joga canastra comigo
enquanto a gente toma uma cerveja?
Porque não se senta à minha mesa?

Porque não me coloca no colo (Pai),
não me conta história à noite
e me avisa pra onde vai?

Porque não diz o que vai fazer comigo?
Livre-arbítrio? Besteira!
Já viu um pai que não queira
proteger a todo custo seu filhinho?
Que pai o deixaria sozinho?

Órfão, me dispo
de todas as rezas e canções
e passo a viver de senões.



Saiu finalmente o livro!!!!!!!
O Amor e Outros Pequenos Sentimentos.
Quem tiver interesse, pode fazer o depósito:
Caixa Econômica Federal
Agência 0996
Operação 013
C/C: 3273-3
R$ 23,00
Enviar o comprovante para
moacircaetano@uol.com.br
Pronto!
Vovê terá no conforto do seu lar meu filho, autografado e cheio de carinho!



 Escrito por moacircaetano às 11h57
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Imóvel


Meu coração tem vista pro mar.
Sacada ampla, bem iluminada.
Meu coração tem uma arquitetura intrincada.
Quebra-cabeça, jogo de armar..

Meu coração tem janelas pro norte
e portas pro sul.
Uma parede é vermelha,
outra amarela,
aquela azul.
Meu coração tem pomar, jardim e um roseiral.
Tem clarabóia e luz zenital.
É um coração tipo sítio, sabe?
Umas vaquinhas no pasto
e um pé de abacate.

Meu coração está sempre bem arrumado,
faxina todo santo dia.
Poeira não junta em minha prataria.

Meu coração já esteve à venda,
já foi alugado, já teve invasão.
Hoje, compadre, não entrego não...

Olha aqui o recibo de quitação!



 Escrito por moacircaetano às 20h56
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Desistência


Ela merecia um homem melhor...
Um que a soubesse de cor.
Um que a tivesse na ponta dos dedos,
que lhe soubesse um a um os segredos.
Um homem que fizesse sumir
o medo da madrugada.
Um homem que a fizesse sorrir
ao fim do dia, mesmo suja e cansada.

Ela merecia um pouco mais de sorte.
Um homem sensível e forte.
Alguém que a amasse, simplesmente.
Que surgisse em seu trabalho, de repente,
no meio de uma tarde preguiçosa,
com um beijo nas mãos e um ramalhete de rosas.
Ela merecia algo de mágica, eu sei...
Uma quase princesa à espera de um rei.

Ela,
e todas as mulheres dentro dela,
mereciam cada uma seu par ideal...

Mas ontem à tarde,
no centro da cidade,
o salto no espaço e o ponto final.

Saiu finalmente o livro!!!!!!!
O Amor e Outros Pequenos Sentimentos.
Quem tiver interesse, pode fazer o depósito:
Caixa Econômica Federal
Agência 0996
Operação 013
C/C: 3273-3
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Enviar o comprovante para
moacircaetano@uol.com.br
Pronto!
Vovê terá no conforto do seu lar meu filho, autografado e cheio de carinho!



 Escrito por moacircaetano às 10h34
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Traição


Eu sei, a poça de sangue...
e a arma em minhas mãos... 
a desordem no salão...

Mas não,
não se assuste com o cenário!
Sou inocente até prova em contrário!


 Escrito por moacircaetano às 23h10
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Pequenas glórias


Pequenas vitórias.
Fugazes glórias do dia-a-dia.
Momentos que não definem uma vida
mas por alguns momentos
a tornam menos vazia.

O sorriso da moça do caixa.
A baixa taxa de colesterol.
Um carro que pára na faixa.
Por entre as nuvens escuras,
um raio súbito de sol.

A fila, mais rápida que as filas dos lados.
Olhares que se cruzam, pequenos pecados.
A música preferida
justamente na troca de estação.
Solzinho de inverno e chuva de verão.

Um gol de bicicleta.
Um buquê de rosas, namorado.
O lugar certo na hora certa.
Biscoitos amanteigados, coberta
e leite quente achocolatado.

Um straight-flush na mão.
Um coringa pra fechar a canastra.
Um elogio do patrão.
Uma nota de cinquenta
lavada e passada no bolso da calça.

Ligação de amigo distante.
Mensagem de celular apaixonada.
A foto de quem se ama na estante.
O trabalho terminado
uma hora antes da data estipulada.

Efêmeras glórias.
Pedaços crocantes de fantasia...
Se não nos matam a fome,
ao menos
não nos deixam de barriga vazia.



 Escrito por moacircaetano às 19h55
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Bâr'dêi


Metade de setenta...
Até quando a vida se espicha?
Até quando a vida aguenta?...


 Escrito por moacircaetano às 00h16
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A Vez Primeira


Nas misteriosas paragens do desejo se perdeu.
O prazer surgiu, suspeito, crime perfeito.
Não pensou. Cometeu.

E Ele veio, impressentido.
Aquele que nunca havia acontecido.
Gozou, gozou, oh, Deus!



 Escrito por moacircaetano às 19h56
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