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moacircaetano


MINHA AMIGA SECRETA

Thais Helena


por moacircaetano
Menina ainda...
ainda menina...
traz consigo flores nas mãos
e essa alegria feminina
esse cheiro de primavera
cheiro de juventude
e de adrenalina...

Mulher que principia...
menina ainda...
a vida inteira pela frente
um gosto de manhã
no paladar adolescente
Uma vontade de viver
de crescer, de virar gente!

Uma menina, uma mulher
Uma flor, uma explosão
Um navio em alto-mar
um princípio de canção
uma estrela incandescente
uma praia inexplorada
um diário de milhões de páginas
ainda na introdução

Ah, quantos amores
te esperam pela janela
quantos sorrisos, quantos olhos
quantos abris e primaveras
quanto tens de esperança
de promessa e de dança
de utopias e quimeras...

Vai, menina
adentra o palco!
O universo é teu companheiro!
O espetáculo começa agora
sem ensaio, sem roteiro
é uma ópera enlouquecida
maravilhosa, suicida...
olha, ali é a entrada
desse imenso picadeiro!

Bem vinda ao mundo, moça
bem vinda, menina-mulher
bem vinda, é só escolher
o personagem que quiser!
Escolha as suas falas
escolha a trilha sonora
e viva!
Viva sempre!
Eu fico aqui, te aplaudindo de pé!
Um ano maravilhoso pra vc, Thais, minha amiga secreta.
Adorei ter te conhecido, e adorei mais ainda ter saído com você ne Amigo Secreto.Beijos enormes!



 Escrito por moacircaetano às 09h32
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DESERTO

moacircaetano


Texto escrito para o 11° Concurso Blogueiros Malditos.
Já não havia escolha.
Não havia alternativa possível.
Era a sua única opção.
Calçou seu Converse velho, colocou duas mudas de roupa na mochila e se mandou.
Carona.
Sol escaldante.
De vez em quando fome.
Seus cem reais duraram apenas dois dias.
Não teve coragem de enfrentar o relento.
Hospedou-se num hotel de décima categoria.
Enquanto dormia, pensou na sua situação...
Nenhum plano B... sem saída de emergência.
Em suas mãos, apenas aquela velha poesia... a única que tinha feito em sua vida.
Esperou passar o primeiro idiota.
Apontou pra ele a folha de papel.
Gasta.
A bolsa ou a sanidade...
Ao vislumbre dos ameaçadores versos, a vítima entregou sua própria vida...



 Escrito por moacircaetano às 01h06
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PROCURA

sandra sousa e moacircaetano


 Chegamos ao café com o sol ardendo sobre nossas cabeças. Entramos. Sentamos. Pedimos:
- Dois cafés, por favor.
Ninguém disse mais nada. Engolimos a bebida quente como o dia. Era preciso muito controle ali, um ao lado do outro e o outro ao lado do um. Saímos.
Entramos. O quarto tinha as janelas entreabertas, cortinas. Fechamos tudo, apesar do calor!! Ali começaria nossa tortura insana. Naquele momento o incêndio era iminente.
Mas ainda não era hora!  Ainda não estávamos  prontos! Mesmo após tantas horas de insônia, tantas trocas de olhares, tantos suspiros entrecortados...
Mesmo após centenas  de juras silenciosas... Não, não estávamos prontos! Talvez um de nós estivesse mais certo... talvez para o outro a dúvida fosse mais evidente, mais visível...
Mas de qualquer forma sabíamos... Era inevitável. Tinha de haver a primeira vez. E alguém precisava tomar a iniciativa... Permanecemos inertes. Um diante do outro sem dizer palavra, sem nenhum gesto... Éramos apenas dois corpos. Plenos de desejos. Sem saber ao certo que movimento fazermos para despir-nos das convenções.
Sentíamos o calor do quarto queimando dentro dos olhos... Os olhares cada vez mais provocadores... nossa mudez espalhava-se! E por não sabermos como nos tocar, acendemos a vela que foi deixada em cima da mesinha de canto. Era a maneira mais delicada de inflamar nossa ansiedade. Aquela chama no mínimo nos alcançaria... e por fim seríamos brasa.
Olhamos para a cama. Perfeitamente arrumada para nós. Talvez se alguém se sentasse ali, na beirada, o clima se tornasse mais descontraído.  Olhamos sem dar sequer um passo na direção dos lençóis... e finalmente nos encostamos, pesados de culpa. Foi como se recebêssemos uma carga elétrica...
Uma mão tocou a outra. Sem que ninguém soubesse quem iniciou o movimento. Os olhos se fuzilaram. De algum lugar, nasceu um calafrio que lhes dilacerou o peito, o estômago, o coração... Quente!
O abraço evoluiu para uma dança. Uma dança insana, sem ritmo, descoordenada. Uma dança de línguas, de braços, de pernas. Uma dança de salivas.
E as mãos dançando entre os tecidos... em passos que iam cada vez mais nos desvencilhando das roupas que, rasgadas, foram abandonadas ali mesmo, no chão. As unhas riscando nossas carnes... pedindo sangue. Quente, muito quente! Suor que lubrificava beijos, acentuando seus sabores.
Agora nossos corpos não tinham mais dúvidas...  Apenas o desejo,  quase uma entidade física, a nos ensinar os movimentos. Éramos empurrados para o abismo.
No auge da loucura, a penetração era iminente... Paramos! Um barulho de porta se abrindo na sala ao lado... 
Minha querida amiga Sandra Sousa desapareceu. Sem deixar vestígios.
Seus três blogs foram desativados. Nunca mais apareceu no Messenger. Nem tampouco no Orkut. Não responde mais nenhum email.
Infelizmente, não tenho seus telefones.
Quando ela sumiu, estávamos escrevendo esse texto a quatro mãos. Ficou assim, inacabado. Em suspenso. Assim como agora estou.
Posto o texto como um grito de socorro. Como um sinal de fumaça. Garrafa ao mar...



 Escrito por moacircaetano às 15h41
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RETRATO

Giancarlo e moacircaetano


Cansei de perder o tempo
(tempo outrora sagrado)...
Ao perder teu retrato
desfiz-me em pausa e hiato...

Sou um sino belo... e sem laço...
sangrando tempo pelo espaço...
sou o que quiseres!
(é assim que me preferes?)

desde que me queiras...
domingos, sábados e segundas-feiras...
como tu sempre queres!

É aí que de mim te diferes!




 Escrito por moacircaetano às 23h17
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NATAL


Não entendia nada daquilo.
Não entendia porque as ruas estavam tão cheias, com tanta gente carregando pacotes de um lado pro outro, com sorrisos pregados na cara e tanta agitação.
Não entendia porque em quase toda loja via desenhos de um gordo de roupa vermelha.
Só sabia que seu estômago continuava doendo, e que precisava arrumar logo algo pra comer. Sempre fora mais difícil pra ele, que era surdo-mudo. Era como se fosse invisível.
Aliás, com cinco anos, sem família, sozinho pelas ruas, não era somente invisível... era praticamente inexistente.
Voltou pro viaduto. Talvez tivesse sobrado alguma comida dos mais velhos.



 Escrito por moacircaetano às 08h10
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RODAPÉ

moacircaetano


Texto escrito para o 10° Concurso Blogueiros Malditos.
Sentou-se em sua cama.
Pousou a cabeça entre as mãos e chorou. Como nunca havia chorado antes. Como nunca experimentara nesses trinta e tantos anos de vida.
A decadência começara pouco a pouco. Quando nascera. Acreditava piamente que o auge da existência de um ser humano era o nascimento. Daí pra frente, tudo o mais é morte.
A sua se acentuara há dez anos atrás. Quando sua mulher o abandonara. Sem explicações. Também inexplicavelmente, seu irmão mais velho desaparecera. Exatamente no mesmo dia.
A bebedeira foi inevitável. Anos e anos. Até que um dia seu pai levara seu filho. Ele não se importou.
Os amigos, já escassos, se afastaram. Não suportavam mais suas crises histéricas de auto-piedade. Nem sua insuportável tendência de desaparecer na hora de pagar a conta. As mulheres, que a princípio se encantavam com seu jeito foda-se de ser, logo descobriram ser um embuste. Ele não dizia foda-se ao mundo... dizia foda-se a si mesmo. E a quem estava ao seu lado.
A única coisa que restara era seu emprego. Escritor de obituários. Quase sempre se dizia Escritor. E só. Sem o complemento desagradável e dispensável. Era bonito isso... escritor...
Mas hoje estava sentado em sua cama chorando.
Em suas mãos, um nome.
E ele não conseguia escrever a porra do obituário.
Depois de vinte anos fazendo a mesma merda, não conseguia escrever a porra do obituário.
Olhou novamente o papel através das lágrimas.
Manoel Batista de Araújo.
Era ele mesmo.



 Escrito por moacircaetano às 22h11
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Destruí mais uma vez
as amarras da realidade...
É fácil!
Bastam alguns verbos nas mãos
e um pouco de vontade...



 Escrito por moacircaetano às 09h08
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CORREÇÃO ORTOGRÁFICA

moacircaetano
Ah, português incorreto
que não reconhece
o que se quer expressar!
Por exemplo:
o mar não deveria ser
a mar?


 Escrito por moacircaetano às 09h28
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A HORA MÁGICA

moacircaetano


O sol ainda mantinha sua bandeira hasteada nos céus.
As nuvens ainda se movimentavam, lentas, deslizando pelo azul infinito e monóóótonooooo da tarde...

Mas dentro de mim já era noite!




 Escrito por moacircaetano às 06h09
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Me ensina?
Como ser tão gigante
sendo tão pequenina?



 Escrito por moacircaetano às 07h34
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BALADA DA FALTA DE INSPIRAÇÃO

marcelo brettas & moacircaetano

Por onde andam as palavras? Eu as procuro por todos os cantos, nos becos, nos bares, nos picos e mares.
No som dos ventos penso ouvi-las, mas logo zunem e somem.

 

Sim, as palavras sumiram!

Mas que falta de consideração!

Logo eu, que sempre as tratei

com enlevo e com paixão!

Nunca deixei faltar

nem  o beijo nem a grana

nem a cama nem o pão!


Escavando o coração salvo algumas, ainda molhadas e meladas. Escrevo as que recordo, as outras escorrem e, sós, morrem.

 

Morrem, ali mesmo

ao alcance do meu olhar...

Morrem sem ter pena

de mim e da minha pequena

vontade de continuar!


Tento pegar as que vivem na alma, mas essas são as piores, amaldiçoadas até parecem. Atravessam as mãos, braços e tudo que matéria é nesse meu ser e se vão, sem rastro deixar.

 

No horizonte ainda as diviso,

traço de nuvem no céu.

Meu coração se angustia

desabalado tropel

e num espasmo impensado

derrama em meus olhos molhados

um pouco de sangue e de fel.


Finalmente abro o dicionário e as encontro... Estão todas lá, intactas, organizadas, belas como sempre.
Leio, releio e de novo leio.... Dez, cem, milhares delas se mostram em múltiplos significados.

 

Ao fim, não eram as palavras!

Era eu e minha maldita

falta de inspiração!

Tateei-as, uma a uma

sentindo-lhes a textura

e suas carícias em minha mão.

Me parecem tão frias...

até mesmo agressivas

em sua organização!


Berro! As palavras jamais fugiram! Me calo... nunca!




 Escrito por moacircaetano às 06h08
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?

moacircaetano


Cadê essa inspiração?
Que depois de tanto tempo
me deixa na mão?

Pego a caneta e nada
tateio o teclado
olhos pros lados
e vejo apenas terra seca
onde corria uma enxurrada

Mãe
porque me abandonaste?
Volta... me ilumina
esse caminho estranho
a que chamam arte!



 Escrito por moacircaetano às 07h51
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FORMIGUINHA


Vou dar um tempo na série pra homenagear essa poeta-escritora-mulher que eu adoro: a Ane Aguirre.
Beijos, formiguinha!

Formiguinha...
vem, caminha
entre meus pés...

Formiguinha, formiguinha...
adoro as cócegas
que o seu caminhar me traz.
Adoro a sensação de paz
quando te vejo através...

Formiguinha...
dentro da sua casa
não tem algo pra mim?
Pode ser um pedaço de bolo
da estação passada
ou uma folha de jasmim!

E a formiguinha vem
e me traz
seus versinhos...
Me empanturro
e ainda quero mais um pouquinho...


 Escrito por moacircaetano às 09h57
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MOMENTOS PROVÁVEIS DE SERES IMPROVÁVEIS

Desnascimento

Abriu os olhos!

Mesmo no escuro, como ardiam! Era como se estivessem cheios de areia... não, de pedaços de vidro! Uma dor insuportável!

Uma lufada de ar invadiu seus pulmões. Sentiu, um a um, seus alvéolos se dilatarem... O ar, que sempre lhe parecera inofensivo, agora lhe dilacerava, como milhares de formigas raivosas marchando por entre seus tecidos.

Sentiu algo lhe rasgando por dentro... o seu sangue! Correndo através das veias ressecadas! Abrindo espaço à força entre espaços já destinados ao vazio.

E sua cabeça... sua cabeça explodia em milhares, milhões de pensamentos, que ferroavam sua mente! Malditas abelhas, escrevendo em cada neurônio sua marca de veneno e ferocidade.

Mas porque tudo isso? Não estava ele em seu sagrado descanso? Já não sofrera o suficiente? Já não pagara todos os seus erros? Lhe havia sido prometido o paraíso, e de repente lhe traziam de volta ao inferno!

O cheiro de repente surgiu! Ou melhor, seu olfato renasceu! E como um soco, a podridão lhe atingiu o rosto! Cheiro de decomposição, de morte, de putrefação... Bem ao fundo, um cheiro conhecido... o seu!

Os sons começaram a chegar aos seus ouvidos... Barulho de rocha sendo arrastada... Barulho de vozes confusas e excitadas. Barulho, barulho, barulho! Uma voz forte, poderosa, se fez ouvir: “Levanta-te e anda!”

Suas pernas e seus braços se movimentaram sem a influência de sua vontade. Aliás, se moveram contra a sua vontade. Só queria dormir novamente.

Levantou-se, num ato único e doloroso. A voz o guiava. E o impelia. A luz esbofeteou-o. O calor queimou sua pele como carvão em brasa. Cada uma de suas células aterrorizou-se com o que estava por vir. Estava vivo novamente!

O homem o olhava com carinho. Todo o resto da multidão o olhava com uma mistura estranha de fascinação, asco e temor. Tentou falar alguma coisa, mas suas cordas vocais estavam irremediavelmente arruinadas. E algo mais estava arruinado... sua sanidade!

Fora ele o escolhido para dar ao mundo a prova final. Em troca, levava consigo uma maldição. Sem fome, sem sede, sem vontade ou consciência, estava vivo! Era ele a maravilha maior do criador... a derrota sobre o fim!

Lhe fora negado o prazer da Vida e o repouso da Morte!




 Escrito por moacircaetano às 05h43
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MOMENTOS PROVÁVEIS DE SERES IMPROVÁVEIS

Ciao


O sol ardia na tarde norte-americana.
Algo ainda maior ardia dentro daquele coração azul.
Era ali que se encerrava aquele mês difícil e, ainda assim, maravilhoso!
Da altura de si próprio, olhou para o chão. A grama verde brilhava com os raios do sol escaldante. A bola estava aos seus pés. Bola que já lhe servira de patroa, de empregada, de amante, de algoz, de mulher.  Bola que já recebera de suas chuteiras tantos toques, tantas carícias, e às vezes até mesmo porradas.
Ali estava ela, pronta pra ser sua novamente...
Não fora fácil chegar até ali. Derrubara desconfianças e incredulidade. Derrotara imprensa, colegas de trabalho e a resistência de um técnico desconfiado. Vencera a contusão e a falta de preparo físico.
Durante o caminho até aquela final, quase entregara os pontos algumas vezes. Seu time não engrenava, as jogadas não saíam, o gol era quase uma exceção. Mas ali estava!
Sua cabeça pesava uma tonelada. Queria nunca mais tirar os olhos da bola e do chão. Queria que o tempo parasse, pra que não fosse preciso carregar em suas costas tamanha responsabilidade. Mas isso não era mais possível. Carregava uma nação em seus ombros.
Olhou à frente. O gol, enorme, parecia agora minúsculo. O loiro goleiro adversário parecia preencher todo o espaço existente entre as traves.
Isso era ridículo! Sabia que um pênalti era o gol mais fácil do mundo. Bastava colocar a bola bem perto da trave, onde nenhum goleiro seria capaz de alcançar! Isso! Bem perto da trave! Não tinha erro!
Se afastou da bola. Alguns pequenos passos para trás. Sentiu os olhos de todo o mundo cravados em sua nuca. Ouviu as vozes de seus companheiros se reunirem em uma prece. Ouviu o sotaque de cada um de seus compatriotas. Sabia que neste momento todos eles se reuniam em suas casas, nas praças e bares. Sabia que cada um deles esperava por esse momento.
Seguiu em direção à bola. Olhou por um segundo para o olho do goleiro, que destilava confiança e coragem. Viu em sua mente seus próprios olhos... cansados, repletos de medo e insegurança.
Seu pé fez o movimento inadiável.
Em terras verde-amarelas, milhões explodiram em festa.
Mas aquele coração azul nunca, nunca mais sorrirá novamente...



 Escrito por moacircaetano às 00h23
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MOMENTOS PROVÁVEIS DE SERES IMPROVÁVEIS

Fuga


O som da guerra chegava-lhe aos ouvidos, insistente.
Era tudo muito estranho... Ele, que durante anos adorara o som da guerra, com seus zumbidos, explosões, gritos, silvos, lamentos... Ele, que ferozmente lutara para que a guerra fosse uma realidade, e não um desejo coletivo oculto... Ele, que já fora chamado merecidamente de O Senhor da Guerra... agora só queria o silêncio... agora só queria a paz...
Não a paz cínica e falsa da maldita aliança que lhe mordia agora os calcanhares... não a paz mórbida e improdutiva dos judeus e seu sangue impuro... não a paz hipócrita dos americanos e seus thanksgivings.
Queria a paz organizada, limpa e fluorescente dos seus gabinetes assépticos. Queria a paz metódica e inteligente das salas de guerra, onde as batalhas ocorriam através de telefones e telégrafos... Queria a paz de sua casa, onde Eva tantas vezes aquecera seus pés e seu coração.
No entanto, só existia agora esse maldito bünker, sujo e destruído. Só existia a traição, que levara para longe todos os sorrisos e regalias. A fome, a sede e o gosto de medo na boca.
E a arma nas suas mãos.
Olhou para o rosto de Eva, desfigurado pelo desespero. As mulheres eram frágeis. Mesmo Eva!
Ele, porém, sabia o que tinha de ser feito.
Não se transformaria em uma piada ambulante. Não deixaria a raça ariana ser ridicularizada, julgada num tribunal ilegítimo e impuro. Não seria execrado por negros, judeus, índios e outros primatas. Não.
Jamais seria tocado por mãos estrangeiros. Muito menos Eva. Pelo menos não vivos.
O som das tropas inimigas aumentava. A qualquer momento seu diminuto exército de elite sucumbiria. Faltava pouco tempo agora.
Olhou para a arma. Apontou para sua mulher. Disparou.
Ainda surdo pelo estampido, sorriu.
Chegara a sua vez...



 Escrito por moacircaetano às 06h17
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MOMENTOS PROVÁVEIS DE SERES IMPROVÁVEIS

Redenção


Chovia.
Como se o mundo fosse acabar naquele mesmo momento.

Chovia aos cântaros. Relâmpagos e trovões rasgavam os céus e feriam os ouvidos e olhos, como se o mundo voltasse seu dedo acusador contra todos.

A dor era inimaginável.

Sentia cada um de seus dedos se retorcerem repetidamente. De suas mãos um riacho de sangue escorria. Sangue escuro, quase negro. Sangue que purificaria a todos.

Seus pés, que sustentavam agora quase todo o peso do seu corpo, se transformaram em duas formas indefinidas, revoltas em sangue coagulado, pus, moscas e carne crua.

Orações iam e vinham de forma ininterrupta em sua mente, preenchendo o vazio. Vazio que seria insuportável. Que lhe traria certamente a loucura.

Não. Ele não perderia a razão. Não poderia nem mesmo perder a consciência. Tinha que se manter acordado, até o último instante. Sofrer cada lufada de dor. Sentir cada choque, cada espasmo, cada calafrio. Latejar até o segundo preciso.

Precisava pensar em cada um de seus filhos, e oferecer-se em sacrifício a todos eles, um a um.

Aos justos e aos pecadores. Aos ímpios e aos honestos. Aos adúlteros e aos sacrílegos. Aos assassinos e aos hipócritas. Às prostitutas, aos sodomitas, aos mercadores do templo, a Judas e a si próprio. Precisava redimir os que lhe tinham açoitado, torturado, ridicularizado... aos que lhe tinham condenado à morte. Àquele que lavou suas mãos. E ao que lhe cravou as estacas.

Por um momento, pensou não poder.

Olhou para os céus à procura de seu pai. Não o viu. Via apenas a tempestade.

Pensou estar abandonado... e estava!

Um pensamento lhe correu a mente, e sua voz percorreu todas as realidades. “Senhor, porque"...?

Olhou para baixo. Todos já haviam fugido da chuva, menos uma. Ela ainda estava ali, aos seus pés. Chorava. Implorava. Mas seus pedidos eram inúteis. Já estava escrito.

O céu se abriu ainda mais, e uma luz inundou a existência. O auge da dor o atingiu, e ele quase desfaleceu. Mas ainda havia uma última missão. Missão que lhe era quase impossível. Perdoar a todos, apesar de tudo. Apesar de sua morte, e da morte de tantos outros. Apesar da iniqüidade, da injustiça e de tudo o que havia visto.

Um suspiro profundo...

Conseguiu.

E nesse momento, a dor cessou.

“Pai, perdoa-os"...

A tempestade amainou. Apenas uma poucas gotas de água lhe lavaram a pele. Carinhosamente. Sentiu o sal. Eram as lágrimas de seu pai.

Olhou para a mulher aos seus pés. Sorriu...




 Escrito por moacircaetano às 05h54
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