Conto Navegação-Labirinto
moacircaetano & czarina
1.
Finalmente cheguei em casa. Noite longa do caralho.
Olhei pras minhas mãos. Ainda se desenhava a pressão do metal.
Algumas gotas de chuva me escorriam pelo queixo e morriam, silenciosas, no carpete escuro. Ali desapareciam, sem rastro aparente. Meus cabelos estavam ensopados, pouco pela tempestade e muito pelo suor.
Não perdi meu tempo agradecendo a Deus antes de entrar em casa como minha mãe me havia ensinado durante tantos anos. A velha certamente ficaria triste. Foda-se. A raiva, contida até então, tomou conta de mim. Comecei a quebrar tudo o que via pela frente. Televisão, armários, bibelôs, aparelho de som, microondas, geladeira... Tudo! Não sobrou nada pra contar a história.
Após quatro ou cinco minutos, já não havia nada que não houvesse sido atingido. Olhei novamente pras minhas mãos no espelho. Sangue. Olhei pros meus olhos. Sangue. Olhei pra minha merda de vida. Sangue.
Sono. Pouco.
Manhã de calor insuportável. Uma nesga de sol que penetrou pela janela recaiu exatamente sobre meu rosto, imprimindo o vermelho por dentro dos meus olhos fechados. Levantei da cama que pendia em diagonal, um dos pés quebrados no ataque de fúria da madrugada anterior. Minha cabeça pulsava. Atulhei as roupas no canto do banheiro e tomei uma longa chuveirada. O piso do box recebeu a contragosto a mistura azeda de sangue e suor.
A pizza fria do jantar ainda estava sobre a mesa. Comi, arrumei a mochila com umas duas mudas de roupa, a toalha ainda molhada e uns outros poucos materiais de higiene. Cortei o pé nos restos de bibelôs a caminho da porta. Olhei o apartamento semidestruído: cacos de louça, quadros trespassados por meu punho, peças desencaixadas de madeira, espuma dos travesseiros, manchas amarronzadas e hematosas no carpete cor de creme. Hesitei. Quanto tempo até o senhorio perceber que eu me mandara? Quanto tempo até arrombar a porta estreita (número 23) e encontrar as manchas indeléveis, a destruição, o buraco no orçamento dos meses de aluguel que agora não seriam pagos jamais? As azeitonas germinadas naquela irreconhecível pizza? Dois dias? Três?
Peguei os óculos escuros e, trancando as portas pelo caminho, saí pra rua.
Pra continuar: Sabedoria de Improviso
Escrito por moacircaetano às 11h47
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