Vagabunda
Ruídos na porta. Som de chave na fechadura. Girando. Amplificando minha noite de insônia e tortura.
Os fios da meia-calça roçando o tapete, tão desgastado, no piso da sala. Passo a passo. Vagarosamente. Vontade de matá-la.
Posso até ouvir sua respiração. Entrecortada. Não sei se medo, excitação ou embriaguez. Provavelmente a emoção por ter feito tudo, tudo outra vez.
Agora já chegou ao quarto. Não é só a audição que me auxilia. Posso sentir, mesmo de longe, o cheiro de vinho barato aquecendo a noite fria.
De nada me adiantam agora todas as leituras de outrora. De nada me adiantam Baudelaire, Sheakespeare e Gonçalves Dias. De nada me adiantam Neruda, Machado, ou Dostoyevsky e suas alegorias. De nada, nada me adiantam Freud, Jung, Nietzche e suas teorias tantas. De nada me adiantam centenas de livro na estante. Me apaixonei por uma vagabunda sem vergonha, bêbada e inconstante.
O som delicioso de sua roupa tocando o chão. O som de sua calcinha molhada caindo sobre a roupa. O som de seu corpo nu singrando o ar e se aproximando da minha boca.
Ela se deita ao meu lado. Roça seu sexo em minhas pernas. Arromba todas as portas. Adentra todas as cavernas.
Beija minha boca com seus lábios. Cheiro de outro homem. Gosto de outro homem. A raiva me impele. O ciúme me consome.
...
Estou dentro dela. Estou no paraíso. Nas minhas mãos, a força do ódio. Na minha cara, um enorme sorriso.
E enquanto pressiono contra meu corpo a sua bunda, agradeço a Deus por minha doce vagabunda!
Escrito por moacircaetano às 08h07
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